Paulo Camelo

Poesia é sentimento. O resto é momento.

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Protagonista inconsciente
Data: 02/09/2013
Créditos:
Crônica de Paulo Camelo.
Voz de Paulo Camelo.
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (Autor: Paulo Camelo - www.camelo.recantodasletras.com.br). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.

Protagonista inconsciente
Entro no apartamento que me é indicado e logo me vem alguém com uma roupa esquisita e me entrega. Diz que é para eu vestir ao contrário apenas aquela roupinha curta e sem graça. Eu faço assim como mandado.
Sou instado a deitar na cama.
Depois me chega um motorista com um veículo esquisito, e eu passo, deitado, da cama para o veículo, e fico deitado ali. Levantam-se duas grades laterais, e o veículo sai, em disparada, corredor afora. Eu só vejo as luzes passando sobre minha cabeça, enquanto ouço uma distante despedida de minha mulher:
- Ciao, Marido! Boa sorte!
O veículo expresso chega à estação terminal. Eu passo – deitado – dele para uma mesa estreita e me acomodo com dificuldade nela.
Chega outra pessoa e me põe sob as costas duas táboas, transformando a mesa em cruz.
Um participante do ato em que vou ser o protagonista inconsciente se aproxima, se identifica como o anestesista e me diz que eu apenas vou dormir.
E só.
Já me sinto em um túnel escuro a me dirigir para uma estação pouco movimentada – não sei se de trem ou de metrô, mas cheguei quase a reconhecer a Estação Joana Bezerra - e alguns desses veículos vão passando, quase que silenciosamente.
Então, começo a ouvir muita gente conversando. Esforço-me para ouvir o que falam. Sei que estão falando, e muito! Mas não consigo compreender uma única palavra do que dizem.
Chegam mais próximo. Distingo algumas silhuetas, mas não sei quem são. Eles continuam conversando, e eu noto que a conversa diz respeito a mim.
Nesse instante, sinto minha parede abdominal ser espetada, puxada e empurrada, mas não me incomodo, porque não sinto dor e sei – [in]conscientemente – que estão realizando uma operação e eu sou o alvo de toda a conversa.
E os repuxões continuam, as conversas também, e começo a desconfiar do que falam, embora ainda não entenda as frases completamente.
Então, ouço:
- Pronto. Terminou.
A partir de então, só sinto um barulho familiar de um rolo de esparadrapo sendo rasgado e utilizado, e suas faixas sendo coladas em meu ventre.
E depois vem a ordem:
- Acorde, Paulo!
Abro os olhos e vejo uma barreira de tecido a me separar do resto do ambiente.
Nesse exato momento, entendi que a cirurgia já havia terminado. E eu, como um tolo que participa de uma encenação sem saber ao certo o que estava fazendo, começo a esboçar um sorriso e dar graças a Deus.
Consumatum est.
Amém.

04/07/2013
Enviado por Paulo Camelo em 04/07/2013

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